Prefeitura Municipal de Itariri · Departamento Municipal de Saúde

DPOC Exacerbado

Protocolo municipal para reconhecimento, classificação de gravidade (proposta de Roma), manejo inicial em modelo ACLS e definição de internação/transferência da exacerbação aguda de DPOC.

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Ponto-chave: DPOC é doença irreversível e progressiva. Cada exacerbação acelera fibrose, remodelamento e destruição alveolar — aumenta hospitalização e mortalidade. Trate o paciente, não apenas os números.

Vídeo-aula: DPOC — A Jornada Clínica

Aula em vídeo do protocolo municipal — reconhecimento, classificação e conduta na exacerbação aguda de DPOC.

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Infográfico do Protocolo

Versão visual de bolso — reconhecimento, diagnóstico e tratamento inicial da exacerbação grave de DPOC.

Infográfico DPOC Grave — Sala Vermelha Itariri: avaliação clínica, diagnósticos diferenciais, exames, tratamento inicial, VNI e intubação

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Objetivo

Padronizar o reconhecimento, classificação de gravidade, manejo inicial, estabilização e definição de internação ou transferência de pacientes com exacerbação aguda de DPOC na Rede Municipal de Saúde de Itariri, com base nas diretrizes GOLD e na proposta de Roma para classificação de gravidade.

Definição (GOLD)

DPOC é uma doença heterogênea caracterizada por sintomas respiratórios devidos a anormalidades das vias aéreas e/ou alvéolos, que causam obstrução persistente e progressiva ao fluxo aéreo.

  • 3ª causa de óbito no mundo.
  • No Brasil: até 15% da população > 40 anos pode ter DPOC, e apenas 2% têm diagnóstico.
  • Diagnóstico tardio → doença avançada → alta mortalidade.

Fisiopatologia (resumo)

Exposição inalatória (tabagismo 80–90%, poluição, biomassa, ocupacional) → inflamação crônica (macrófagos, neutrófilos, linfócitos CD8) → liberação de proteases (elastase) → desequilíbrio protease × antiprotease (deficiência de alfa-1 antitripsina amplifica o dano) → fibrose, remodelamento e destruição alveolar.

Resultado: bronquíolos estreitados e cheios de muco + alvéolos destruídos (enfisema) → ar entra, mas não sai → retenção de CO₂, hiperinsuflação e dispneia progressiva.

Pulmão normal

Balão elástico — esvazia.

DPOC

Saco rígido — não esvazia.

Diagnóstico de DPOC (3 critérios)

  1. Exposição inalatória (tabagismo, fumaça, biomassa, ocupacional).
  2. Sintomas: dispneia, tosse e expectoração crônicas.
  3. Espirometria: VEF₁/CVF < 0,7 pós-broncodilatador → limitação ao fluxo aéreo.

Estadiamento GOLD pelo VEF₁: > 80% (GOLD 1) · 50–80% (2) · 30–50% (3) · < 30% (4).

Exacerbação aguda — definição

Piora aguda da dispneia e/ou tosse e expectoração em menos de 14 dias, exigindo modificação do tratamento. Os principais gatilhos são vírus, bactérias e fatores ambientais.

  • Acelera fibrose, remodelamento e destruição alveolar.
  • Aumenta hospitalizações e mortalidade.
  • Reduz sobrevida.

Diagnósticos diferenciais obrigatórios

Sempre excluir antes/durante o manejo:

  • Pneumonia adquirida na comunidade (PAC)
  • Insuficiência cardíaca descompensada (IC)
  • Infarto agudo do miocárdio (IAM)
  • Tromboembolismo pulmonar (TEP)
  • Pneumotórax

Classificação de gravidade — Proposta de Roma

ParâmetroLeveModeradaGrave
FR< 24 irpm≥ 24 irpmEsforço respiratório
FC< 95 bpm≥ 95 bpm↓ sensório
SatO₂≥ 92%< 92%PaCO₂ > 45 mmHg
PCR< 10 mg/L≥ 10 mg/LAcidose (pH < 7,35)
GasometriaNormalPaO₂ ≤ 60 / PCO₂ > 45, sem acidoseAcidose respiratória

Sinais de alarme: rebaixamento, cianose, exaustão respiratória, instabilidade hemodinâmica, SatO₂ < 88% mantida com O₂ controlado, acidose respiratória → considerar VNI/IOT e transferência.

Conduta inicial — modelo ACLS

  1. ABCDE, sentar o paciente, MOV (monitor, O₂, acesso venoso) e ECG.
  2. Oxigenoterapia controlada: cateter nasal 1–3 L/min ou Venturi 24–28%. Alvo SatO₂ 92–94%.
    ⚠ Não hiperoxigenar — excesso de O₂ ↑ PaCO₂ e piora a hipercapnia.
  3. Leve: SABA inalatório (Salbutamol).
  4. Moderada / Grave:
    • SABA + SAMA (Salbutamol + Ipratrópio) em nebulização — 3 ciclos na 1ª hora.
    • Corticoide sistêmico: Prednisona 40 mg VO 1×/dia ou Hidrocortisona 200 mg EV.
    • Antibiótico se escarro purulento, ≥ 2 critérios de Anthonisen ou necessidade de VNI/IOT.
    • O₂ controlado (SatO₂ 92–94%).
    • VNI (BiPAP) precoce quando indicada (ver seção).
    • Considerar Sulfato de Magnésio 2 g EV em 20 min em casos refratários (UpToDate).
  5. Reavaliar em 1 h → alta orientada, observação prolongada ou internação.

Exames no Pronto-Socorro

  • Hemograma, PCR, eletrólitos, função renal e glicemia
  • RX de tórax
  • Gasometria arterial
  • D-dímero, troponina e BNP — se suspeita de TEP, IAM ou IC
  • ECG de 12 derivações

VNI — Ventilação Não Invasiva

Indicações:

  • Dispneia intensa com uso de musculatura acessória
  • Acidose respiratória (pH < 7,35 e PaCO₂ > 45)
  • Rebaixamento leve do sensório (confusão, letargia)
  • Hipoxemia significativa (PaO₂ < 40 mmHg)

Contraindicações / cuidado:

  • Parada respiratória, instabilidade hemodinâmica grave, coma
  • Vômitos / risco de broncoaspiração, trauma facial
  • Excesso de O₂ na VNI → ↑ PaCO₂ — titular com cautela

Prescrição no PS — modelo (exacerbação grave)

Ex.: paciente tabagista 50 anos-maço, dispneia e tosse produtiva há 5 dias. FC 102 · FR 26 · PA 130×90 · SatO₂ 90% → GRAVE. Emergência + MOV + ECG.

  1. Dieta zero / conforme tolerância. Cabeceira 45°.
  2. O₂ por cateter/máscara — alvo SatO₂ 92–94%.
  3. Salbutamol spray 4 puffs com espaçador, 3× na 1ª hora, depois 4/4 h e SOS.
  4. Ipratrópio 20 gotas + SF 0,9% 3 mL — nebulização 3× na 1ª hora, depois 6/6 h.
  5. Hidrocortisona 200 mg EV em SF 0,9% 100 mL em 20 min (ou Prednisona 40 mg VO 1×/dia, 5 dias).
  6. Antibiótico por 5 dias quando indicado:
    • Azitromicina 500 mg VO 1×/dia, ou
    • Amoxicilina + clavulanato 875/125 mg VO 12/12 h, ou
    • Levofloxacino 500–750 mg VO/EV 1×/dia.
  7. Sulfato de Mg 10% — 20 mL (2 g) em SF 0,9% 100 mL EV em 20 min, em casos refratários.
  8. Profilaxia de TEV (HBPM) conforme avaliação de risco.
  9. Sinais vitais + SatO₂ 4/4 h; reavaliação médica em 1 h e a cada 6 h.

Tratamento ambulatorial — GOLD (após alta)

Definir grupo combinando: espirometria (GOLD 1–4), sintomas (mMRC e CAT) e histórico de exacerbações.

GrupoPerfilTratamento
AmMRC < 2 · CAT < 10 · poucas exacerbaçõesSABA SOS
BmMRC ≥ 2 · CAT ≥ 10 · poucas exacerbaçõesLABA + LAMA · SABA SOS
EExacerbador: ≥ 2/ano ou 1 com internaçãoLABA + LAMA (± CI se eosinófilos ≥ 300/mm³)

Medidas essenciais (todos os grupos):

  • Cessação do tabagismo — encaminhar ao programa municipal
  • Reabilitação pulmonar e atividade física regular
  • Vacinação: Influenza anual, Pneumocócica e COVID-19 atualizadas
  • Uso correto dos dispositivos inalatórios
  • O₂ domiciliar nos casos avançados (PaO₂ ≤ 55 mmHg ou SatO₂ ≤ 88%)
  • Mucolíticos opcionais: NAC 600 mg 2×/dia ou Carbocisteína 500 mg 3×/dia
  • Azitromicina 3×/semana em pacientes exacerbadores selecionados
  • Reavaliação na UBS em 7 dias após alta

Critérios de internação / transferência

  • Exacerbação grave sem resposta ao tratamento na 1ª hora
  • SatO₂ < 88% mantida apesar de O₂ controlado
  • Acidose respiratória (pH < 7,35) ou hipercapnia nova/progressiva
  • Necessidade de VNI ou via aérea avançada
  • Rebaixamento do nível de consciência, confusão, agitação
  • Instabilidade hemodinâmica, arritmias graves, suspeita de IAM/TEP
  • Comorbidade descompensada (ICC, IRA, sepse)
  • Suporte domiciliar insuficiente para alta segura

Checklist de enfermagem — pontos essenciais

Avaliação inicial

  • Identificar paciente e conferir prescrição
  • Sinais vitais (FR, FC, PA, Temp, SatO₂)
  • Esforço respiratório, tiragem, padrão
  • Oximetria contínua — alvo 92–94%
  • Nível de consciência

Intervenções

  • Posicionar sentado / cabeceira 45°
  • Instalar O₂ controlado conforme prescrição
  • Preparar e administrar nebulizações (SABA + SAMA)
  • Acesso venoso periférico e coleta de exames
  • Administrar corticoide e ATB conforme prescrição
  • Preparar VNI quando indicada
  • Reavaliar a cada 15–30 min na 1ª hora

Referências

  • GOLD — Global Strategy for the Diagnosis, Management and Prevention of COPD (edição vigente).
  • Proposta de Roma para classificação de gravidade da exacerbação de DPOC.
  • Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — Diretrizes para DPOC.
  • Ministério da Saúde — Protocolos da Atenção Básica e Urgência.
  • UpToDate — Acute exacerbations of COPD (manejo no PS).
  • Módulo VIII – Aula 3 – DPOC (material institucional, 2026).

Slides de Treinamento Presencial

Acesse a apresentação de slides utilizada para a capacitação presencial das equipes de assistência da Sala Vermelha de Itariri.

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